Sobre o Projeto Jovem Rocinha


Poderia ser um apartamento comum de uma das mais populosas favelas da América Latina - a Rocinha -, mas neste, entre tantos, há uma diferença: além de ter as portas sempre abertas, ele funciona como um espaço de convivência inteiramente dedicado à educação e emancipação cidadã de adolescentes. A Casa Jovem é a sede adaptada do Projeto Jovem da Rocinha e acolhe uma turma de vinte adolescentes da região, que ocupam suas tardes em oficinas diversas, além de receber atendimento psicológico individual - oferecidos gratuitamente, durante um ano (quando a turma é renovada e o projeto contempla novos alunos). As atividades propostas tem sempre o objetivo central de ampliar o conhecimento desses jovens sobre a realidade sociocultural que os cerca, tornando-os sujeitos participativos e conscientes de seus direitos e deveres na sociedade.

A idéia é simples, o resultado é inestimável: a aquisição de novos hábitos por meio da conscientização; a afirmação e a defesa dos direitos humanos nos campos da educação, da cultura, da saúde, do saneamento ambiental e da cidadania têm sido algumas das conquistas da Casa Jovem ao longo de seus quatro anos de trajetória. 

A intenção do Projeto é fazer com que os participantes passem a refletir sobre as questões sociais que os cercam, superando limitações traçadas pela miséria, pela violência, pelo descaso do poder público e das classes dominantes. Preenchendo suas tardes com atividades de reforço escolar ou extracurriculares, o projeto visa afastar os jovens da criminalidade, ampliando seus horizontes acerca de seu futuro, trabalhando suas questões subjetivas e objetivas, respeitando as singularidades de cada um.
A população-alvo escolhida para participar tem idade entre 13 a 17 anos, com alfabetização obrigatória, podendo ou não estar estudando e/ou trabalhando. Geralmente, a maioria dos participantes estuda em escolas públicas no período da manhã.




O dia-a-dia da Casa Jovem é assim: nas tardes de segunda à quinta-feira, os adolescentes participam de uma programação estabelecida de oficinas (são cerca de duas por dia). Os alunos devem comparecer todos os dias, após suas aulas regulares. Alunos e responsáveis conhecem a regra do número máximo de faltas (25%) – que, caso seja quebrada, implica na saída do Projeto. A programação atual da Casa Jovem é composta por oficinas de Artes, Teatro, Audiovisual, Dança, Inglês, Espanhol, Português, Saúde, e Cidadania. Às sextas, alguns alunos recebem atendimento psicológico individual, outros são atendidos ao longo da semana, no final da tarde. É oferecida ao jovem a possibilidade de ser atendido mais de uma vez na semana, caso ele sinta necessidade. 

O ambiente foi adequado para acomodar o maior número possível de participantes: o cômodo mais espaçoso virou sala de aula; o outro quarto transformou-se em consultório e sala de estar; o quartinho menor hoje é uma “ilha de edição” e sala de informática. Localizado na principal rua da Rocinha, a Via Ápia, o espaço conta com uma laje onde os alunos participam de aulas de Teatro, Dança ou Artes Marciais. 

Os participantes de turma anteriores (ex-alunos) são incentivados a visitar a Casa Jovem quando quiserem e puderem, o que é muito relevante para o acompanhamento do caso. Alguns ex-alunos garantiram uma extensão do atendimento psicológico individual após a conclusão de seu ano letivo.


Atendimento psicológico
A psicóloga que atende a esses jovens, um a um, é também a coordenadora do Projeto, Helena Bastos Wittlin. O atendimento psicológico trabalha com a perspectiva de auxiliar os jovens a lidar com sua problemática emocional, colaborando com a busca de cada um por sua identidade social e individual. Através do processo terapêutico, pode-se interagir com questões relacionadas ao abandono, à baixa autoestima, à agressividade, à sexualidade, ao conflito interpessoal, ao transtorno alimentar e outros distúrbios psicossomáticos que produzem sofrimentos psíquicos significativos na vida destes adolescentes.

No que se refere ao atendimento social, o auxílio prestado aos jovens e suas famílias baseia-se em encaminhamentos para itens como atendimento médico, odontológico, jurídico, psicológico, matrículas escolares, etc.


A Associação Amigos da Vida
A Casa Jovem é uma iniciativa da ONG ítalo-brasileira Associação Amigos da Vida (uma parceria com a "Il Sorriso dei miei Bimbi Onlus") - fundada em 2003 pela italiana Barbara Olivi, moradora da Rocinha há treze anos, também idealizadora do Projeto Social Jovem. Um dos projetos mais bem-sucedidos da Associação até agora é a Escola Maternal Saci Sabe-Tudo, que completa seus dez anos de funcionamento com uma excelente infraestrutura, atendendo a 100 crianças da comunidade. A Casa Jovem também oferece a Oficina de Alfabetização para Crianças, Jovens e Adultos, coordenada pela psicóloga Juliana Susskind Borenstein, que também realiza um trabalho fundamental como educadora das Oficinas de Saúde e de Cidadania para adolescentes.

Partindo da premissa de que todos os seres humanos merecem exercer com plenitude os seus direitos civis, os comprometidos com este projeto também acreditam que as soluções para os maiores desafios sociais do homem virão mais da inventividade popular do que da cabeça de gênios iluminados.


Metodologia de ensino
A escolha de uma metodologia participativa de ensino não permite que se estabeleçam relações hierárquicas nas quais o conhecimento seria transmitido verticalmente a alunos considerados “tábulas rasas”. O Projeto Jovem orgulha-se de sua pauta construída por uma via dupla de iniciativas da coordenação e dos educadores, de um lado, e questões trazidas pelos alunos, de outro. Esta interação de conhecimentos, compartilhados horizontalmente, aceita os jovens em toda a sua complexidade - que dividem temas de seu contexto social, agregando novas considerações e pontos de vista. Cabe ao educador desenvolver esses temas no decorrer do processo e aprender com a diversidade de posicionamentos em relação aos problemas vividos nestas áreas.

Ao jovem participante cabe o papel de interagir, criar, desenvolver suas habilidades e intervir no espaço educativo, ultrapassando a categoria passiva de “aluno de oficinas” para se tornar um agente criativo dentro da realidade onde vive. Os educadores proporcionam as condições para que estes jovens possam se expressar artisticamente e propagar os conhecimentos adquiridos – criando filmes, fotografias e desenhos, textos, artesanatos, sites na internet, peças de teatro e muitos outros.

Um dos objetivos específicos mais interessantes do projeto é o de estimular os jovens a serem multiplicadores dos conhecimentos nas áreas do Meio-Ambiente, Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST´s) e Drogas em sua comunidade, combatendo os danos gerados pela falta de informação relacionada a estas questões. 

A coordenação da Casa Jovem também elabora um cronograma com atividades extras e parcerias que permitem a realização de passeios culturais e ecológicos fora da favela: ao teatro, cinema, parques, trilhas, concertos, museus e etc.

No final do ano letivo, os alunos recebem um certificado de conclusão contendo todas as oficinas em que eles participaram, com a carga horária referente aos dez meses de funcionamento do PJ. Este documento contribui para enriquecer o currículo de cada participante.

O Projeto Social Jovem está alinhado com a proposição do Ministério da Educação quanto aos Parâmetros Curriculares Nacionais e seus eixos transversais, que visam promover uma educação comprometida com a cidadania, de acordo com os seguintes princípios: dignidade da pessoa humana – respeito aos direitos humanos, repúdio à discriminação, acesso a condições de vida digna e respeito mútuo nas relações interpessoais, públicas e privadas.


Origem do projeto
O Projeto Social Jovem surgiu de forma espontânea e foi se mantendo em meio a uma atmosfera informal e acolhedora: seus primeiros participantes eram adolescentes (entre 13 e 15 anos) que viviam em uma situação de abandono muito grave, sustentando-se por meio de malabarismo nos sinais de trânsito próximos à favela. A idealizadora do projeto, Barbara Olivi, os recebia numa pequena sala na favela, todas as noites, para um jantar coletivo. Além da macarronada tradicional feita pela italiana, era hora de muita conversa para aqueles meninos: uns contavam piadas, outros falavam de suas dificuldades na vida, alguns revelavam seus sonhos, entre outros assuntos variados. Mais adiante, ainda que de forma esporádica, foram introduzidas algumas atividades nestes encontros, tais como aulas de reforço, italiano, conhecimentos gerais e cidadania. Em 2007, um estilista italiano, sensibilizado com o trabalho desenvolvido por Barbara, financiou a compra de um imóvel para servir de sede do projeto - onde se mantém até os dias de hoje. No ano seguinte, o projeto abriu suas portas, desta vez, oferecendo atividades diárias ligadas à educação, cultura e esportes. Tornou-se, a partir daí, um verdadeiro centro de convivência para jovens excluídos, que passou a ser chamado de Casa Jovem da Rocinha.

Panorama atual
No curso destes quatro anos, dezenas de adolescentes (e, por tabela, seus pais e familiares), foram beneficiados. A intenção do Projeto é rumar mais e mais em direção à Rocinha profunda, alcançando suas crianças e adolescentes mais desamparados com a finalidade de envolvê-los com a interação educacional.

A intervenção do Projeto Social Jovem na vida destes jovens ocorre em um fase de muita instabilidade emocional, lidando com uma realidade bastante complexa quando se trata de estrutura familiar. Por isso, é encarada com urgência a tarefa de retirá-los de um estágio de quase letargia mental para um despertar de suas capacidades intelectual, criativa e emocional. O envolvimento dos responsáveis destes jovens é imprescindível no decorrer de todo o processo realizado pela a equipe. Esta iniciativa se depara com obstáculos até com famílias com núcleo estrutural considerado tradicional, mas é um desafio necessário para garantir a eficiência deste complexo trabalho.

Nossa prioridade é expandir o Projeto, assegurando a continuidade de recursos financeiros que permitam escalar novos degraus neste esforço de ampliar o conhecimento desses jovens. A Casa Jovem vem recebendo doações ainda de modo muito errático, o que às vezes paralisa ou retarda sua implementação.  A Associação Amigos da Vida confia que pode ampliar a fonte de doadores que colaborem com este processo de transformação da vida de centenas de crianças e adolescentes da Rocinha, partindo do seu cotidiano de imensas privações para um país mais justo, na certeza de que o mundo a gente muda a partir de onde a gente está!

Diante da instabilidade de recursos financeiros, o Projeto abriu vagas não remuneradas para educadores; atraindo jovens voluntários, a partir dos 23 anos, graduados e graduandos de áreas diversas. Esta oportunidade de trabalho, mesmo sob a alcunha de educador, é sempre, antes de tudo, um aprendizado. Abrir caminho para um perfil universitário, engajado em causas sociais e comprometido com uma experiência que vai além do currículo, permitiu que o Projeto diversificasse ainda mais o corpo docente composto por psicólogos, mestres e outros profissionais. 

A quem quiser e puder colaborar de outras formas com a Casa Jovem, a coordenação também aceita doações de equipamentos de audiovisual (usados ou novos; profissionais ou amadores); livros e material escolar. Patrocínios e parcerias são muito bem-vindos para garantir a continuidade deste trabalho. 


Contexto: a Rocinha
A complexa realidade da Rocinha espelha bem os problemas históricos do desenvolvimento urbano brasileiro, caracterizado por profundas desigualdades sociais, que tendem a manter na invisibilidade as necessidades e os direitos de crianças e adolescentes que pertencem a comunidades pobres deste país. Na cidade do Rio de Janeiro, como todos sabem, o ambiente urbano é marcado por lutas pela ocupação da terra, que envolvem diferentes atores sociais: de um lado, especuladores imobiliários, não raro escudados pelo poder público, do outro, grandes contingentes de população socialmente deserdada.

Contudo, depois do boom imobiliário há 40 anos atrás, que ergueu edifícios e casas para as classes médias e dominantes nos bairros do entorno, a Rocinha deixaria de ser somente uma “favela-dormitório” para os trabalhadores da construção civil, mas também um lugar para onde viriam morar de vez seus familiares, egressos, sobretudo, do Nordeste. Desde então, seus problemas vem aumentando em velocidade exponencial e certamente não se reduzem à precariedade das moradias que o IBGE costuma reconhecer como aglomerações subnormais. Nelas, a população residente está majoritariamente privada de muitos outros direitos humanos, sendo-lhe subtraído o acesso universal, equânime e de qualidade à saúde pública, ao saneamento ambiental, à segurança alimentar, à educação, à cultura e ao transporte público.

A Rocinha fica situada entre o Morro Dois Irmãos e a Floresta da Tijuca, ocupando 144 hectares. Ela constitui uma Região Administrativa autônoma, a XXVIIa RA, e na ótica do PAC é composta por 8 Áreas de Intervenção (AIs), onde existem 28 comunidades com índice de privações variável entre si, sendo a mais crítica delas na AI 4, que reúne as comunidades da Roupa Suja e da Macega. A Rocinha apresenta um dos menores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) do município (0,732), sendo vizinha da Gávea, bairro que possui o maior IDH do município (0,970).

Quanto ao sistema educacional, convém salientar que a oferta de creches comunitárias, assim como de escolas de ensino fundamental e médio, está aquém da demanda. No primeiro caso, apenas 36% das crianças de 0-3 anos frequentam as creches – das quais muitas delas não contam com infraestrutura e pessoal qualificado para este fim). No segundo, há uma defasagem de quase 30% na oferta de escolas para crianças e adolescentes em idade escolar, sendo que cerca de 6 mil jovens nesta faixa estão fora da escola. A oferta de cursos técnicos é variada, mas carece de pragmatismo para o mercado de trabalho. Já a de cursos de pré-vestibular comunitários é bem reduzida e marcada por forte evasão.

Seja como for, constata-se na Rocinha a presença de um forte orgulho de se morar ali e um sentimento de pertencimento entre os moradores, especialmente entre a juventude, os quais adubam o terreno para múltiplas interações. Verifica-se um difuso, porém renovável impulso de resgatar a autoestima comunitária, frequentemente assaltada pelas carências materiais históricas, pela violência do tráfico que ceifa a vida de jovens e pela invisibilidade a que tem sido relegada a comunidade, por parte do lado incluído de nossa sociedade. Contudo, no seio da comunidade há aqueles adolescentes que não terão deixado se abater e buscam dignidade com garra e criatividade.

Na época de sua implementação, o Projeto Social Jovem baseou-se no Censo Domiciliar da Rocinha de 2008, que indicou que ¼ da população em idade escolar estava fora da escola, sendo que o ensino público só respondia pela oferta de 60,7% das vagas para esta faixa etária. Quanto à qualidade do ensino, pesquisa amostral feita com moradores indicou que a ação tida como prioritária por eles, para melhorar a educação na comunidade, seria investir na qualidade da mesma (63%), mais do que construir ou ampliar as escolas (32%). No tocante aos cursos profissionalizantes oferecidos na comunidade, desponta a avaliação de que existe uma razoável oferta dos mesmos, mas que em sua maioria carecem de serventia no mercado de trabalho. Por fim, com respeito a cursos comunitários de pré-vestibular, ao mesmo tempo em que há apenas dois deles na comunidade, muitos dos que chegam a cursá-los acabam se evadindo, diminuindo suas chances de ascender ao ensino superior.

É neste contexto que nosso projeto pretende habilitar moradores de 13-17 anos, buscando avançar e aprofundar iniciativas já em andamento. Ali, onde muitos jovens são atraídos pelo poder sedutor do tráfico e servem nas fileiras de um dos ofícios mais perigosos que existem, encurtando as suas vidas ao morrerem na flor da idade ou irem para a prisão. A recente instalação de uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) na Rocinha, em conformidade com a atual política de segurança pública do estado, ainda não deu início a uma mudança objetiva da forma de violência reinante - não será da noite para o dia que a cultura da truculência, quer do lado do tráfico, quer do lado das forças policiais, será extirpada. 


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